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Terça-feira, 18 de Junho de 2013

O teatro alienado e o teatro progressista em 1974

Em complemento do escrito já aqui mencionado do Rosas&Pereira, sobre a miséria intelectual do teatro popular de revista, espécie menor da cultura para entreter e vituperada por aqueles como um dos factores de "alienação" (termo marxista) que o regime de Salazar dava ao povo para o enganar, vem a talho de foice ( e martelo também) estas duas páginas do Sempre Fixe de 5 de Outubro de 1974.

Na primeira aparece o teatro mau, o que não prestava e era "teatro que não pode ter lugar neste país". Era uma comédia de Camilo de Oliveira...que constituía "uma enorme agressão ideológica", no que aqueles dois concordariam plenamente.

Meia dúzia de páginas à frente aparece o exemplo do teatro bom, o inteligente, "recheado de bons trocadilhos" e verdadeiramente artístico que merece todos os encómios: Pides na grelha.


O anúncio do República de 27 de Setembro de 1974 não enganava ninguém: teatro desmontável Ádóque. No Martin Moniz e metro Socorro. Com, entre outros Rui Mendes, Henrique Viana, Helena Isabel, e texto de Nicholson.
"Pides na grelha" era apresentado como " a primeira revista á "nova portuguesa". Assim, sim, diria o Rosas & Pereira.

Vox populi


Rui Pedro Soares, Américo Thomati e João Carlos Silva foram esta quinta-feira absolvidos pelo Tribunal de Oeiras dos crimes de corrupção passiva no caso Taguspark. O caso remonta a 2009, quando alegadamente o apoio de Figo a José Sócrates teria sido comprado, através da utilização de verbas do parque tecnológico. Na altura Rui Pedro Soares era administrador da PT, acionista do Taguspark, e os outros dois arguidos eram responsáveis pelo parque tecnológico situado no concelho de Oeiras. Em tribunal o MP pediu a absolvição dos arguidos.


Os três ex-administradores dos CTT Carlos Horta e Costa, Manuel Carrasqueira Baptista e Gonçalo Rocha foram absolvidos esta terça-feira pelo tribunal de Coimbra dos crimes económicos e gestão danosa pelos quais estavam acusados. 
O presidente dos CTT entre 2002 e 2005, Carlos Horta e Costa (na foto), e os administradores, durante o mesmo período, Manuel Carrasqueira Baptista e Gonçalo Rocha, estavam acusados de, alegadamente, terem provocado prejuízos à empresa, que, de acordo com a pronúncia, ascendem a cerca de 13,5 milhões de euros.

Estes dois casos, entre outros, depois, têm este reflexo:

Cerca de 80% dos portugueses acredita que a Justiça do País não pune os poderosos, e a percentagem dos que acusam os tribunais de não tratar todos os arguidos da mesma forma chega mesmo aos 93%. Estas são apenas duas das conclusões de um estudo recente do Centro de Estudos Sociais, avança o Diário de Notícias.

No estudo 'As Mulheres na Magistratura em Portugal' levado a cabo pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, os portugueses não poupam críticas ao sistema judicial português. As conclusões serão hoje apresentadas no Parlamento.

A maioria, 60% dos inquiridos, considera a Justiça lenta, 80% considera que os magistrados não punem os cidadãos com mais poder económico, e 93% afirma que a Justiça afinal não é cega e trata de forma diferente determinados arguidos.

Muitos dos inquiridos afirma que "não vale a pena recorrer a tribunal" devido à lentidão, pode ler-se no documento do estudo.

Para o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, Vaz das Neves, as leis não ajudam, "porque os juízes limitam-se a aplicar a lei, e os advogados, que não são imparciais porque defendem os interesses dos seus clientes", usam "todas as possibilidades que a lei lhes dá" para os ajudar.

Notícias ao Minuto | 18-06-2013

Crimes comuns contra o erário público

 Público-Economia:

O relatório da comissão de inquérito às parcerias público-privadas (PPP), entregue nesta segunda-feira no Parlamento e a que o PÚBLICO teve acesso, arrasa as decisões tomadas por membros do Governo de José Sócrates. A administração da Estradas de Portugal (EP) é acusada de ter sido “conivente com a opção política vigente” e o regulador dos transportes considerado “incapaz” de exercer as funções de supervisão destes contratos.

As conclusões do relatório de 500 páginas, que será divulgado publicamente na terça-feira, começam por apontar que “a utilização massiva de PPP em Portugal como forma de financiamento do Estado desvirtuou o seu objectivo fundamental: reduzir custos para o Estado e melhor satisfazer as necessidades públicas”.
Um dos principais problemas identificados pela comissão foi o facto de os estudos encomendados pelo Estado para suportar a celebração destes contratos assentarem “em cenários inflacionados e pouco realistas”. Mas a comissão vai mais longe e afirma que “o recurso excessivo às PPP teve por base a necessidade de os agentes políticos realizarem obra sem formalmente se endividarem”, por via de um “aproveitamento político pernicioso” que resultou do facto de este tipo de encargos não ter impacto na dívida pública, naquela altura.
As maiores críticas são direccionadas aos contratos feitos no sector rodoviário, com destaque para a Lusoponte, que a comissão classifica como “um dos piores exemplos”. Neste caso, o relatório indica que os acordos de reequilíbrio financeiro desta concessão já custaram aos contribuintes portugueses quase 847 milhões de euros.
É, porém, na parte destinada às antigas auto-estradas sem custos para o utilizador (SCUT) que surgem as mais duras acusações aos responsáveis políticos, especialmente no que diz respeito às renegociações ocorridas em 2010, durante o Governo de José Sócrates. “A comissão considera inaceitável que o Governo à época tenha assumido e aceite crescimentos elevados de tráfego que não eram de todo previsíveis” e que, não se concretizando, obrigaram à compensação financeira dos concessionários.
Neste campo, o relatório aponta especificamente o dedo aos ex-secretários de Estado dos Transportes, Paulo Campos, e das Finanças, Carlos Costa Pina. No que diz respeito a este último, a comissão escreve que o “repudia politicamente” pela “desresponsabilização que evidenciou” na renegociação destas PPP.
A anterior gestão da EP, liderada por Almerindo Marques, também não escapa às críticas. Além de acusar a empresa de conivência com as opções políticas na massificação das PPP, a comissão quer que os administradores sejam “chamados a assumir as responsabilidades” a par dos governantes da altura, especialmente no que toca à contratação de subconcessões rodoviárias, como a obra do Túnel do Marão, parada desde 2011. Isto porque foram assumidos encargos que puseram em causa a sustentabilidade da EP, apesar dos alertas do Tribunal de Contas e da Inspecção-Geral de Finanças. O relatório cita uma “carta de conforto” enviada à empresa por dois ex-ministros de Sócrates (Mário Lino e Teixeira dos Santos) assegurando o cumprimento dos compromissos financeiros.
Já em relação ao IMTT, que supervisiona o sector dos transportes, o relatório indica que “acusou incapacidade em exercer na plenitude a sua função de regulador”, nomeadamente no que se refere às PPP do sector ferroviário.
O relatório dá conta que, mesmo com a última renegociação (feita pelo actual Governo com uma poupança de 300 milhões de euros ao longo da vida dos contratos), os contribuintes vão ser onerados em mais de 12 mil milhões de euros por causa das PPP. E termina afirmando que “entende, por força dos pedidos feitos por autoridades judiciais, enviar o relatório ao Ministério Público”.

Espera-se que o DCIAP, agora dirigido por Amadeu Guerra, um magistrado que conhece este tipo de manigâncias e que é pessoa competente e séria,  consiga enquadrar estes procedimentos e estes responsáveis nos tipos de crime catalogados no Código Penal e legislação avulsa porque esta actuação desta gente é simplesmente criminosa porque objectivamente o pode ser em termos legais e subjectivamente o deve ser porque não se compreende que tenham agido apenas por negligência. Não pode haver negligência derivada da incompetência em casos que envolvem verbas públicas  desta ordem. Só por si, tal facto integra a figura do dolo eventual que permite o enquadramento subjectivo.
Noutros países foram julgadas e condenadas pessoas por factos como este, com regras penais idênticas, como por exemplo na Itália.
E por cá?
Esta é uma prova de fogo para o novo DCIAP.
Enquanto que o caso dos submarinos da Ferrostaal é um assunto menor ao pé deste, em termos de dinheiro envolvido, as semelhanças entre ambos pode ser aquilatada.
Nos submarinos, o que está em causa é descobrir quem recebeu- indevidamente- dinheiro "por baixo da mesa", no negócio que envolveu o Estado português que pagou. As suspeitas foram positivamente levantadas pela justiça alemã que considerou ter existido corrupção pura e simples, por ter descoberto a entrega e mais de duas dezenas de milhões de euros a alguém cujos serviços poderiam ter sido realizados por meia dúzia. Ou seja, sob uma capa legal, um acto de simples corrupção, com a conivência de pessoas importantes e firmas de advocacia importantes.
A chico-espertice habitual, no fim de contas. 
Neste caso das PPP´s houve positivamente uma entrega de muitos milhões- muitos e muitos mais que no caso dos submarinos- a alguém, difusamente espalhado por particulares e empresas, eventualmente bancos,  que viveram à custa do Estado, com gestores que foram até ministros do Estado e que aproveitaram as "benesses" que alguém do Estado lhes concedeu de mão beijada e baseadas em estudos fantasma ou em estudos com truques.  É esse o elemento da burla, do engano voluntariamente assumido pelo Estado que à partida assumiu tal efeito,  sem questionar a natureza da malfeitoria cujos responsáveis sabiam ou deviam saber perfeitamente o resultado dessa actuação e se conformaram com a mesma.
Os prejuízos directamente causados ao Estado e ao erário público são de tal ordem que condicionam políticas económicas actuais, ao contrário dos submarinos que podem ser um simples caso de corrupção de costumes porque sempre se trocaram luvas em negócios deste género e tal foi assumido pelas partes como efeito normal. Criminoso, mas normalíssimo, porque os partidos políticos  recebem as "sobras" e os responsáveis que contemporizam e pela calada são pagos, mesmo sem ficarem como directamente beneficiários, ficam sempre na sombra e resguardados da responsabilidade inerente. Nestes casos, só por sorte ou por grande descuido são descobertos com a mão " na massa".
E é por isso que a lógica e o senso comum mostram uma coisa e os mesmos se riem disso e mostram indignação postiça.

Segunda-feira, 17 de Junho de 2013

As criancinhas comeram as papas na cabeça do PCP

 Económico:

Tal como o Diário Económico tinha avançado, esta foi a solução do Executivo para os cerca de 23 mil de alunos que não realizaram hoje a prova, segundo as contas do ministro, que diz que 70% dos estudantes fizeram exame.

De manhã, já se sabia, pelo senhor Nogueira do PCP que 90% dos professores tinham aderido à greve. De tarde, veio a saber-se que afinal, 70% das crianças fez exame...

O Expresso e as correias de transmissão do PCP

Em 18 de Agosto de 1975, o então primeiro-ministro do V Governo provisório, Vasco Gonçalves fez um discurso célebre em Almada, difundido em directo pela RTP, pela Emissora Nacional, Rádio Clube Português, etc.
Nesse discurso, um dos mais inflamados que proferiu e com ar ligeiramente alucinado, atacou alguns jornais, nomeando-os, ao O Tempo, ao Jornal Novo e ao Expresso a quem apodou de "pasquins" e "libertinos da informação".
O Expresso, no Sábado seguinte, 23 de Agosto de 1975 publicou uma espécie de resposta em várias páginas, com chamada na primeira. É um número que congrega uma série de elementos muito interessantes para quem quiser saber o que foi o PREC.
Contava então o Expresso que a par dos ataques do primeiro-ministro apareceu também o ataque personalizado do então director-adjunto do Diário de Notícias, o agora Nobél da literatura, Saramago, aliás denunciado na última página do jornal como sendo editorialista-instigador do ataque ao jornal para o colocar sob a alçada do PCP, o que foi conseguido..
E para defesa do jornal apareceu...Otelo Saraiva de Carvalho que afiançava que o Expresso não era pasquim, mas sempre esteve "inserido no processo revolucionário". É preciso ler para acreditar...

Como este é um dos episódios mais importantes do Verão Quente do PREC, apesar de não ter passado de uma diatribe a que o jornal respondeu com outra maior, fica aqui a lembrança para quem já esqueceu e a novidade para quem não sabe.







A par deste episódio em modo de fait-divers aparecia no mesmo número do jornal uma greve que a Intersindical tinha decretado "em protesto contra o fascismo" e que o jornalista Vicente Jorge Silva ( mais tarde director do Público e agora comentador ocasional da SIC) contava em modo a esclarecer a actuação típica da então Inter: correia de transmissão do PCP. Como hoje, aliás.



Olha, um bom sinal...

 RR:


Os alunos dos 1.º, 3.º, 5.º e 7.º anos serão os primeiros a experimentar, já em Setembro, o polémico Programa de Matemática. O programa é homologado esta segunda-feira, mas continua a dividir especialistas na disciplina.
 
Assim que o Ministério da Educação e Ciência (MEC) anunciou um novo Programa de Matemática para o Ensino Básico (PMEB), professores e associações que representam os matemáticos criticaram a opção, lembrando que o programa existente estava em vigor apenas desde 2007.  
 
Para os professores de matemática, o MEC deveria ter optado por avaliar e melhorar o existente, que só este ano começou a ser dado aos alunos do 9.º ano, em vez de criar novos programas. 
 
No entanto, em declarações à agência Lusa, um dos autores do PMEB, o professor Carlos Grosso, recusou a ideia de se tratar de um "novo" programa, uma vez que "em termos de conteúdo, é muito semelhante ao que existia".

Segundo o autor, as mudanças verificam-sem, sobretudo, a nível de organização: algumas matérias desapareceram (como as estimativas) e outras foram mudadas de anos de escolaridade (as translações e probabilidades passaram do 1.º para o 3.º ciclo).  
 
As opiniões sobre o efeito do novo programa nos alunos também são divergentes: a Sociedade Portuguesa de Matemática considera que será "benéfico" para os estudantes, porque vai aumentar a exigência, ao passo que a Associação de Professores de Matemática (APM) diz que representa "um retrocesso de 40 anos no ensino da disciplina" que terá efeitos negativos na aprendizagem.
 
Para a APM, o programa apresenta "deficiências graves ao nível da sua estrutura e lógica global, ao nível pedagógico e didáctico e o nível dos conteúdos programáticos". 

 
Coordenadores da disciplina em escolas com bons e maus resultados nos exames nacionais consideram que o programa é desadequado à idade dos alunos e poderá afastá-los da disciplina, uma vez que nem todos terão capacidade para perceber o que lhes é pedido.



Quem é que está contra isto? Os reaccionários, para usar linguagem comunista patenteada. O aumento da exigência escolar pode ser um bem se for harmonizada. Se for desgarrada será apenas uma tentativa de criação de uma coerência destruída em 1975.

Domingo, 16 de Junho de 2013

Comunistas, socialistas e conformistas, em 1974-75

Desde o 28 de Setembro de 1974 que o PREC foi um ver-se-te-avias. Todos os dias manifestações, declarações, propaganda, manipulação, instrumentalização ideológica contra " a burguesia", o "fascismo", a "reacção".

Economicamente, o país exauria-se em quebra de produtividade, ausência de investimento e escoamento de recursos que outrora foram os principais para o desenvolvimento do país e tinham feito do mesmo um modelo de crescimento que já não há e nunca mais tivemos igual.
O segredo? Provavelmente a organização económica e o sistema que o partido comunista e a esquerda em geral passaram a combater como inimigo da classe operária, dos trabalhadores e explorados. A ideologia tomou conta do asilo e os lunáticos apareciam todos os dias na tv a proclamar a boa-nova da reinventada "batalha da produção" e do desmantelamento do "Estado fascista".

Em 20 de Fevereiro de 1975 o Diário de Lisboa mostrava assim o estado de espírito nacional: novo governo, Vasco Gonçalves a falar ao país, Correia Jesuíno na comunicação social do Estado e "ocupações de casas", ou seja a espoliação pura e simples de habitações de outrém, eventualmente desocupadas, em benefício dos carentes do "movimento popular". A legitimação do roubo fazia-se ideologicamente e ninguém se atrevia a opor-se à tendência que "mereceu já a atenção do governo  e do próprio Copcon" ( a nova polícia política de cariz militar e que actuava muitas vezes à margem da legalidade estrita e com ampla cobertura das chefias militares, como a de Otelo Saraiva de Carvalho).

Na última página noticiava-se a efeméride de passarem nove anos sobre o dia em que "Avelino Cunhal foi a sepultar para o Alto de S. João"...claro que ninguém sabia ou devia saber quem era o tal Avelino ( pai de Álvaro Cunhal), mas também se dava conta de que os "trabalhadores da CUF pedem nacionalização." Assim, sem mais. A CUF era apresentada como "um monopólio com forte influência na vida do País".  E portanto devia continuar a ser monopólio, mas do Estado, como aliás aconteceu dali a alguns meses, depois deste balão de ensaio de preparação da opinião pública. Com os resultados brilhantes que daí decorreram mas ninguém quer denunciar, apontando o dedo aos jerónimos e arménios da época, alguns deles os mesmos de hoje e autores directos da tragédia nacional que se abateu sobre a economia de então, com reflexos que nunca foram devidamente estudados porque o ISCTE ou o CES são para outra coisa.


Em 12 de Abril de 1975 o Expresso consagrava o número quase por inteiro ao próximo acto eleitoral, dando conta de uma facto muito relevante na época: o aparecimento do documento Pacto MFA-Partidos ( que a extrema-esquerda não assinou...), devidamente escalpelizado em artigos no interior e no editorial.
Dava-se conta da ponderação de criação de um "tribunal revolucionário", fosse lá isso o que fosse e evidentemente era copiado das democracias populares. O tribunal teria o escopo de julgar os "crimes contra-revolucionários", fossem lá isso o que fossem que nem definidos estavam. Melhor seria ter aproveitado o conceito de "subversão" que existia no Código Penal e que permitia ao regime de Salazar/Caetano, caçar comunistas e engaiolá-los para não perturbarem a vida do pacato cidadão.

Mais importante e revelador é a notícia sobre o auxílio económico pelo "reconhecimento de uma situação difícil no que toca aos pagamentos externos", o que dava bem o sinal da deterioração progressiva mas firme e rápida da economia nacional, com estas aventuras esquerdistas.

No interior, sobre as eleições, apareciam entrevistas de página aos representantes de três correntes políticas de vulto na sociedade portuguesa: o comunismo com Rosa Coutinho, um militar no activo abertamente a fazer política e que foi um dos que entregou de mão beijada as províncias ultramarinas aos movimentos guerrilheiros da sua preferência e do PCP; Mário Soares, sempre o mesmo, a afirmar politicamente o que depois não cumpria, por não poder: o socialismo real, da "sociedade socialista" que nunca se esforçou minimamente por conseguir tendo no entanto enganado sempre os comunistas e esquerda em geral que ainda hoje lamenta o facto ( o Semedo do Bloco refere ainda hoje ao Diário de Notícias que "o PS não tem uma governação tão diferente assim daquela que a direita tem", como se tal coisa fosse uma novidade a descobrir!) . Soares na entrevista de Fevereiro de 1975 diz coisas inconcebíveis como uma quadratura de um círculo que não podia ser coerente. Foi sempre assim e sempre assim se safou politicamente, com este género de aldrabice que conquista o eleitorado há décadas. Progressismo vendido a pataco é com Soares. Ainda hoje assim é.

O PPD de Balsemão era um partido conformista. Ao ponto de dizer que "o programa do PPD ultrapassa o PC pela esquerda!" e não se rir a seguir da própria boutade. E ainda mais: " a propósito da nacionalização da banca, os únicos reparos que fizemos foram dois: um o de não ter sido decidida democraticamente, o outro uma advertência  para que ela não vá redundar num capitalismo de Estado". Isto basta para ver o que era o PPD de Balsemão, em 1974-75: o partido mais conformista de todos, o mais hipócrita também. Balsemão dizia então que era "necessário descobrir novas formas de vida em sociedade". Se calhar, deixar a Quinta da Marinha como conjunto de datchas...para os apaniguados do novo regime que se anunciava.






 As novas formas de viver em sociedade passavam por exemplo por este futuro prémio Nobél que dirigia o Diário de Notícias como um comissário político do PCP, sem qualquer vergonha revolucionária, conforme noticiava o Expresso de 23 de Agosto de 1975.
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Ao mesmo tempo em Angola, desenrolava-se um drama humano sem precedentes, sequer durante a famigerada "guerra colonial": milhares de mortos em perspectiva, segundo um responsável governamental destacado para lá, precisamente o ubíquo Vasco Vieira de Almeida, agora advogado de firma de luxo. O Expresso noticiava em 23 de Agosto de 1975.



Em 24 de Maio de 1975 o Estado, depois das nacionalizações de 11 de Março, já tinha grandes dificuldades em gerir a miríade de empresas de que se apoderara, obrigando a "burguesia capitalista" ( com o aplauso do PPD) a fugir para o Brasil, Inglaterra, Suíça e outros desterros, levando legitimamente o que pretenderam e à socapa o que puderam.

Num artigo assinado também por José António Barreiros ( !) aparecem as medidas julgadas necessárias para "evitar a falência do Estado"  e comentadas também pelo guru do actual Bloco de Esquerda, João Martins Pereira.


É que o problema de sempre, em Portugal, já se fazia notar nessa altura e por isso até o próprio ministro do Trabalho, Costa Martins ( depois acusado de se ter locupletado com dinheiros alheios e ter fugido para Angola, o que se revelou factualmente falso, ou pelo menos assim foi contado depois, passados alguns anos) dizia uma coisa muito simples que ultimamente temos ouvido muito: já vivíamos acima das nossas possibilidades, mas para a Esquerda não havia problema algum. O dinheiro aparecia sempre de algum lado, nem que fosse...do FMI como aconteceu logo no ano seguinte, com intervenção pedida pelo optimista de sempre, diletante do costume e ignorante alegre das coisas séria da governação económica, Mário Soares, porque "política" é que é e é o que diz saber fazer melhor. O resto não interessa nada.

Expresso de 24 de Maio de 1975:


Entretanto no mesmo jornal duas notícias interessantes: a da criação de um embrião de democracia popular com os "comités de defesa da revolução e os conselhos revolucionários de soldados e marinheiros" ( a Revolução soviética de Outubro servia de inspiração criadora para o que dali a meses viria a tornar- se um problema de dimensão trágica e cujas consequências mais gravosas só foram evitadas pelos militares "reaccionários", tipo Eanes e Jaime Neves). A outra é a ajuda da banca nacionalizada aos jornais esquerdistas, na sua maior parte e dependentes de emprestimos bancários ( do Estado, agora) como de pão para a boca. Não admira que muitos ainda pensem, hoje em dia que" dinheiro há sempre". Haver há, só não há é quem o pague como deve ser depois de o pedir emprestado...


Em 23 de Agosto de 1975 o Expresso mostrava os principais jornais diários a propósito do momento político, retirando conclusões sobre uma evidente confusão de títulos sobre assuntos diversos da política de então e afinados ideologicamente em modo de jornalismo de causa ( tal como hoje).


A partir de 11 de Março de 1975 e das nacionalizações surgiu um novo conceito novilínguístico na sociedade nacional: "batalha da produção". Os economistas de Esquerda, percebendo que não adiantava nada nacionalizar transformando o capitalismo em capitalismo de Estado se a produção não incrementasse, lançaram o mote em modo de propaganda como se tal fosse suficiente para o efeito mágico da retoma da confiança na economia...

Evidentemente que em poucos meses tal gente deu com os burrinhos na água, mas não desarmaram. O Expresso de 5 de Novembro de 1975 organizava uma "mesa redonda" ( como dantes se dizia) para debater os problemas da economia, pós-nacionalizações.
Convidados: o mesmo Costa Martins, um secretário de Estado do IV Governo, Almeida Serra e...João Cravinho, que fora ministro da Indústria e Tecnologia desse mesmo governo.
Ao ler o que Cravinho diz da economia nacional, antes de 25 de Abril e logo a seguir e a relação que estabelece entre a crise grave de confiança criada com o PREC ( de que é exemplo máximo o desprezo pela iniciativa do MDE/S e outras, escorraçando os capitalistas burgueses em nome de um socialismo atávico e um progressismo a pataco, esta gente, como Cravinho e semelhantes conduziram o país à catástrofe anunciada por alguns ( tal como agora). No ano seguinte estávamos na bancarrota (como agora) e as receitas que esta gente dava de graça para o leitor mas a pagar com língua de palmo pelo povo em geral eram de rir. E mesmo sendo ridículas não os mataram politicamente. Cravinho voltou a ser ministro com Guterres e fez uma obra notável de desmantelamento do...Estado, na JAE. Notável de coerência e princípios...este Cravinho que a par de Constâncio é dos maiores bluffs nacionais.
Para Cravinho a origem da crise económica de 1974-76 nada tem a ver com as opções políticas revolucionárias. Nada. Foi tudo obra do "fassismo" e do governo de Caetano. É preciso ser, já não digo burro, mas a desfaçatez é de tal ordem que até dói ler. Cravinho fala da "destruição dos monopólios", da "revolução socialista que deveríamos fazer", tudo para explicar que "não se queira inverter as coisas pondo o 25 de Abril como causa da crise".
Ontem como hoje, esta gente não aprende nada e nada esquece. Só me interrogo como é que dão crédito assim a tais pessoas...


Mas não era apenas Cravinho a explicar a crise económica como tendo origem na governação de Marcelo Caetano e nos "monopólios capitalistas".

Em 16 de Janeiro de 1976, o O Jornal publicava uma extensa entrevista com o mesmíssimo Vasco Vieira de Almeida, o esquerdista que apareceu ao administrador do BPA com um livro de economia marxista debaixo do braço para lhe dar a entender que não queria o lugar mas lá ficou na mesma, diz coisas espantosas sobre a crise e o modo de a ultrapassar. Esta gente não tem mesmo emenda, de facto. Como foi possível ter pessoas destas em lugares-chave da governação e com ideias assim?! Será que as abandonaram ou apenas as colocaram em parêntesis enquanto encheram os bolsos a fazer o contrário?

A entrevista é de Francisco Sarsfield Cabral que agora escreve no Sol todas as semanas.



( Continua...)

Sábado, 15 de Junho de 2013

O Expresso em 1974: a linguagem comunista assimilada

A edição do Expresso de 28/30 de Setembro de 1974 mostra até que ponto a linguagem comunista maciçamente divulgada logo a partir da semana seguinte ao 25 de Abril desse ano, foi assimilada pelos media que nem se diziam esquerdistas.

A figura do presidente da República de então, cargo ocupado por Spínola em função de designação revolucionária, foi progressivamente perdendo relevância e palco.
Expressões como "conspiradores reaccionários" eram usadas pelo MFA para designarem o que pretendiam alterar o rumo dos acontecimentos, no sentido de evitar a tomada do poder pelos "totalirarismos extremistas que manobram na sombra", na expressão usada por Spínola.

Na primeira página do Expresso não aparece a palavra reacção ou fascismo. Aparece a expressão "complot de direita". O jornal era então dirigido por Francisco Pinto Balsemão...

Na última, porém, já temos o cardápio completo das expressões comunistas mais em voga: reacção e fascismo, pois claro, mais uma ideia que ficou para a História que nos contam os Rosas & Pereira, mais as Flunser e Loff: " os partidos de esquerda, organizações sindicais e outras forças políticas começam a denunciar a manifestação de apoio ao general Spínola como uma manobra da reacção e do fascismo ao serviço do grande capital".

Assim mesmo, com todas as letras que é para se perceber o que queriam e...tiveram.

E no interior o assunto era mais explícito e claro: a linguagem comunista já assentara arraiais no Expresso. E tinha vindo para ficar. Balsemão dirigia o jornal...mas esta página vinha assinada por um tal N.S. Só espero que não seja um tal  Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa...


Porém, se dúvidas houvesse quanto à captura e incubação das expressões comunistas pelo jornal que meses mais tarde seria apelidado de "pasquim" por um Vasco Gonçalves em fúria ideológica ( a par de um República e de um Jornal Novo, imagine-se!) o editorial desvanece todas as esperanças e esclarece como foi possível em dois tempos de propaganda ideológica dar a volta ao léxico nacional e inventar uma novilíngua que influenciou nos anos vindouros, até hoje, a visão da História que temos tal como enunciada por aqueles revisionistas falsificadores.

A partir daqui, jornal ou jornalista que usasse outra linguagem era apenas um coisa muito simples de enunciar pelos novos censores do regime: reaccionário. Ou fascista mesmo...

Havia jornais mais à direita? Haver, havia. Mas não eram jornais sérios, porque eram exactamente isso: reaccionários e fascistas. E como tal foram queimados no rescaldo do 28 de Setembro de 1974.

Fizeram uma fogueira com os mesmos...e tiraram fotografias, para comemorar o feito. Publicaram-nas depois no Sempre Fixe da semana.

E a seguir prenderam "numerosos fascistas" publicando a cara como se "procurados" fosse, no jornal, neste caso no Diário de Lisboa, o diário cripto-comunista mais vendido..

Estes "numerosos fascistas" foram presos em qualquer imputação concreta relativa a factos, mas apenas por motivos ideológicos. Estiveram presos durante meses, sem qualquer imputação concreta, acusação ou mesmo explicação dos que os prenderam, ou seja a Esquerda que agora quer "outras políticas".
Não se lembram já disto mas é preciso fazê-los lembrar, a ver se a troika Avoila, Arménio e Jerónimo desembucham outras cousas para além dos slogans habituais.

Os mesmos que isto fizeram andam aí a proclamar que querem "outras políticas". Alguns sabem que políticas são...mas temo que a maioria nem isto saiba.

Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

A reacção "fassista" e a linguagem comunista

Entre o 1º de Maio de 1974, data de inauguração oficial do PREC e o 25 de Novembro de 1975, Portugal foi uma "festa" para a Esquerda comunista em geral. Em pouco mais de um ano conseguiram arruinar economicamente o país, não logrando sequer aguentar o ritmo de produção que vinha de trás, apesar das várias "batalhas da produção" que dinamizaram, com a banca toda nacionalizada e os mais importantes sectores produtivos nacionais de igual modo nas mãos do Estado.
Tal como querem hoje em dia, apresentado tais receitas para resolver os problemas nacionais porque  nisso consiste as tais"outras políticas".

Nas semanas e meses que se seguiram a 25 de Abril de 1974, a linguagem corrente sofreu um corte abrupto com o passado recente e apareceram novas palavras que formaram a novilíngua revolucionária que ainda hoje usam exactamente com os mesmos termos e sentido.

Nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril já vimos anteriormente, através das declarações públicas do economista esquerdista, contratado pelo MFA para orientar os destinos nacionais da época, Francisco Pereira de Moura, que havia "sabotagem económica" das entidades privadas e da banca. Fuga de capitais, desinvestimento, perda da confiança dos empresários, etc. não assustaram em demasia o novo poder que cada vez era mais "popular" e de rua, tal como hoje pretendem de novo vir a ser, lutando todos os dias por isso com denodado esforço da troika Avoila, Arménio e Jerónimo, agora com o apoio do Nogueira.
Assim, a novilíngua comunista passou a veicular os termos e conceitos nos media e nas declarações televisivas dos próceres.

Em Julho/Agosto de 1974, alguns empresários de vulto do nosso país, muitos deles pertencentes à "meia dúzia" de famílias do capitalismo português que o comunismo e o PCP em particular apodava de monopolista e fascista, abertamente, queriam investir. Investir cá, com dinheiro que tinham, em empresas e projectos de vulto para desenvolver o país. Coisa que agora nem temos.
O projecto intitulado MDE/S foi apresentado por Morais Leitão que actualmente capitaneia outra das grandes firmas de advocacia do regime, com a vantagem de nunca ter sido "esquerdista" como um Vasco Vieira de Almeida, um Galvão Telles ou uma série deles que andam por aí a acolitar o Estado na parecerística.

O Sempre Fixe, jornal cripto-comunista dirigido por A. Ruella Ramos, fazia-lhe literalmente a folha deste modo, na edição de 31 de Agosto de 1974.




Foi esta a última tentativa de o sistema capitalista português que até então permitia que o país crescesse economicamente em taxas acima da média europeia ( 6, 7 e até mais de 10%) continuar a vigorar em Portugal, depois do 25 de Abril de 1974. A economia portuguesa depois disto que aconteceu em Julho/Agosto de 1974 e em 11 de Março de 1975 nunca mais foi a mesma coisa e os capitalistas que fugiram ( alguns foram presos, sem culpa formada alguma mas apenas porque eram "fassistas") quando regressaram, em finais dos anos oitenta, nunca mais conseguiram fazer o mesmo que faziam porque o sistema pura e simplesmente tinha mudado e quem o mudou foram os comunistas com apoio activo do PS e sem grande resistência de outras forças políticas que aproveitaram logo os lugares disponíveis nas empresas públicas para colocar o pessoal partidário e apaniguado. os últimos 39 anos têm sido exactamente um reflexo do que aconteceu nessa altura e que obliterou por completo a relação de forças sociais em Portugal, com um Estado agigantado e uma iniciativa privada atomizada e sem monopólios que não os naturais.

Portanto, a  intenção daquele grupo do MDE/S era clara, patriótica até e não havia nada na manga a não ser manter o sistema capitalista que tínhamos, com uma intervenção do Estado reguladora e interveniente no que era preciso segundo os valores da época. Obviamente que não era isso que o comunismo e o PCP pretendiam para Portugal e só a ameaça de tal projecto punha seriamente em causa os objectivos que o comunismo e o PCP tinham gizado para o nosso país, antes até do 25 de Abril de 1974 e para tal basta ler o que Cunhal dizia na entrevista de 1972 aqui já mostrada.

Portanto, o MDE/S era um empecilho perigoso e inútil para tal desiderato que cumpriram em 11 de Março de 1975, sem oposição de maior ou até mesmo sem qualquer oposição porque o que Spínola tentou fazer em 28 de Setembro de 1974 e mesmo em 11 de Março de 1975, numa reacção tosca a um golpe comunista, foi inconsequente e trágico.

Para atingir o objectivo de conduzir o "povo" a aceitar pacificamente a matança da economia, o que foi plenamente conseguido, como o próprio Cunhal confirmou depois em vários discursos, também já por aqui transcritos e aparecidos no último número de O Militante, do PCP ( Maio/Junho 2013), a linguagem usada era clara e ao mesmo tempo mistificadora.

Em  finais de Setembro de 1974 perante os desmandos crescentes da "rua" comunista, algumas figuras restantes do que tinha ficado para trás em 25 de Abril de 1974, entre os quais o próprio general Spínola ( e também Galvão de Melo) que talvez arrependido, tentava retomar o caminho do reformismo encetado, mesmo sem quaisquer laivos de retoma do regime anterior, tentaram apelar a uma maioria silenciosa que julgavam permanecer no país, à espera que alguém a chamasse. Enganaram-se bem porque essa tal maioria já não existia enquanto força activa uma vez que a Esquerda logrou espalhar o vírus do esquerdismo mais chão a toda uma camada da população despolitizada e que acreditava muitas vezes no que lhe diziam ( menos nos comunistas que tiveram pouco mais de 10% nas eleições de 25 de Abril de 1975) colocando muitos ovos no cesto socialista que lhe parecia oferecer garantias de democraticidade autêntica e ao mesmo tempo progressismo a pataco. Tem sido este, aliás, o mote de sempre do PS: progressismo vendido a pataco, na campanha eleitoral e realismo traiçoeiro na governação, depois dos votos no papo. Não vai ser diferente desta vez e a prova é que Seguro até aceitou ir a Bilderberg...copiando o que Hollande anda a fazer em França.

Mas a linguagem mediática, essa, era de pólvora e escopeta e não era mera retórica, como agora as palermices do Arménio.

Depois da tentativa de retoma frustrada de uma putativa  "maioria silenciosa" , os jornais afectos ao PCP e esquerda em geral não se fizeram rogar na novilíngua e foi então que Cunhal, pela primeira vez ( e única) proclamou publicamente algo que revela toda a intencionalidade da violência e repressão comunistas, uma vez no poder e tal como aconteceu em todos, mas mesmo todos os países que caíram sob o jugo comunista sem qualquer excepção:

Assim, na página 10 do Sempre Fixe de 30 de Setembro, a ideia era simples: o PCP a falar em "democracia" que "a reacção" ( leia-se a tal maioria silenciosa que era nada e Spínola que deixar de ser e ainda outro militar da Junta de Salvação Nacional que tomou o poder em 25 de Abril de 1974, Galvão de Melo que era apresentado como um perigoso fascista ao serviço sabe-se lá de quem...) e o PS a falar em "crime" dos "inimigos da democracia" ( Spínola que ainda dois meses antes era um herói nacional pelo que fez em prol do 25 de Abril foi transformado em marionete dos "inimigos da democracia" e mais que isso: terrorista contra a democracia, a soldo de alguém com "vasto apoio financeiro" ( provavelmente os do MDE/S).  O PS acaba em tandem com o PCP: " a vigilância popular será bastante para barrar o caminho à reacção"...isto foi o PS que disse...em comunicado, ao mesmo tempo que pensava em meter o socialismo na gaveta como sucedeu dali a meses. 



 Na página 11, logo a seguir, o menu principal: "partir os dentes à reacção" evidentemente era um eufemismo. De algo que poderia ser comparado ao que Salazar dissera uns anos antes: que era melhor dar meia dúzia de safanões a tempo para prevenir coisas destas. No entanto, na comparação, Cunhal sai a ganhar e com pontos de avanço tendo em atenção o que então sucedia na RDA, na URSS, na Roménia, na Checoslováquia, em Cuba, etc etc, tudo países em que a repressão política e os métodos da polícia política deixavam a milhas de distância a violência suave da PIDE...



E não se diga que era só o cripto-comunista Sempre Fixe a proclamar o medo do regresso do fascismo e outras atoardas. O Diário de Lisboa desse dia, fazia manchete com o mesmo tipo de linguagem:

E o oficioso Diário de Notícias também:

Por causa desta deriva comunista com os compagnons de route do PS à ilharga do PCP, as coisas aqueceram até ao Verão quente de 1975, altura em que finalmente o PS e Mário Soares em concreto perceberam mesmo a sério o que o PCP queria mesmo realmente: o comunismo socialista sem tirar nem pôr, aqui em Portugal, em 1975, a seguir ao 25 de Abril de 1975 que acabou com o regime autoritário anterior.

Nessa altura, aquid´el rei que os comunistas não prezam a liberdade, querem ficar com o nosso República e até querem acabar com a unidade sindical em nome de uma central única que é a deles ( a CGTP já tinha nesse tempo a tendência hegemónica de representar todos os trabalhadores e classe operária; a UGT, essa, era mais burguesa... e por isso era preciso acabar com a burguesia: Hoje, o Silva que dirige a central, é empregado do Salgado do BES que lhe paga o salário todos os meses).

Em Junho, Cunhal tinha dito à jornalista Oriana Falacci que Portugal nunca teria uma democracia parlamentar tipo europeu. Cunhal acreditava mesmo na hipótese...e por isso os jornalistas estrangeiros interessaram-se por este pequeno país em deriva para o comunismo puro e duro do bloco de Leste ( o esquerdismo infantil das UDP, MRPP, PCP ml, PRP, etc etc, seria esmagado como o foi em todos os países comunistas).

Em 5 de Julho de 1975 o Expresso dava conta de um encontro no hotel Altis, em Lisboa, entre Cunhal e Soares para gravar declarações conjuntas para uma emissão de tv francesa da ORTF.
Escreve o jornal sobre "Mário Soares empenhado em mostrar que é socialista, Cunhal insistindo exaustivamente nas "amplas liberdades democráticas, sem, no entanto, as definir". Tal como agora, com a "democracia avançada...e outras expressões castiças do nacional-comunismo. 

E, claro, lá veio à baila o caso República e as tais declarações prestadas um mês antes, à jornalista italiana, já falecida e por aqui já comentada.


De tudo isto o que mais impressiona passados estes anos é como a História se repete com estes mesmos protagonistas e com um discurso um tudo nada diferenciado porque apesar de tudo os tempos são outros. Porém, os objectivos são sempre os mesmos: desestabilizar a democracia burguesa que temos, em prol de outra coisa que agora já não poderá ser a democracia popular comunista de então, dos anos setenta, mas anda lá perto porque as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias tendem a produzir os mesmos efeitos.

E as causas agora são as mesmas: desinformação, ignorância do povo em geral, mentira descarada como propaganda habitual, domínio dos media em geral e da linguagem em particular.
Os efeitos tenderão a ser os mesmos igualmente, porque as circunstâncias apesar de diferentes apresentam uma semelhança: economicamente estamos de rastos, muito por causa do que os mesmos fizeram em 1974-75.

Há um efeito, porém, que também se verificou na época: as pessoas não são tão estúpidas quanto parecem e o PCP as toma como tal. Embora actualmente pareçam um pouco mais estúpidas do que antes, porque tiveram o tempo todo para saber quem é e o que quer o PCP: destruir a economia, empobrecer Portugal para reinar politicamente. Só isto e claramente.

Quinta-feira, 13 de Junho de 2013

Marcello Caetano e Costa Gomes.

Joaquim Veríssimo Serrão escreveu em 1980 um livro sobre Marcello Caetano intitulado Confidências no Exílio, feito de reminiscências, conversas e comentários do antigo presidente do Conselho do regime deposto em 25 de Abril. O livro era para ser publicado no Verão desse ano e Marcello Caetano morreu entretanto, em Outubro de 1980. O livro foi publicado em 1984 e em 9 de Agosto de 1985 O Jornal entrevistou Costa Gomes, um dos visados no livro e  aí chamado de "traidor" com todas as letras e significado.


Costa Gomes respondeu assim. Curiosamente não menciona uma vez sequer a palavra "fascismo"...e "colónias" aparece contextualizada.


Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Vasco Vieira de Almeida, o "velhote esquerdista"...que fez fortuna na advocacia de negócios.

Vasco Vieira de Almeida, abaixo citado no jornal Diário de Lisboa de 12 de Julho de 1974, como sendo um ex-futuro candidato a ministro do II Governo provisório, foi ministro do primeiro, durante dois meses na coordenação económica.
Vasco Vieira de Almeida era, até ao 25 de Abril e segundo a Wiki, aliás muito parca em dados biográficos desta personagem central do actual regime, presidente da administração do Crédito Predial Português.

Em 17 de Dezembro de 1975, VVA foi retratado numa coluna no Expresso, a propósito de "quem é quem na descolonização".  VVA, então com 41 anos,  assume por isso uma faceta de Sombra do regime, a par de um Almeida Santos e outros. Um submarino que submergiu na política nacional logo a seguir ao 25 de Abril, de modo que o seu nome foi logo escolhido para o governo.

"É grande amigo de Marcelino dos Santos, Agostinho Neto, Arménio Ferreira, Melo Antunes", escrevia o Expresso, onde aliás era colunista na página de Economia. "Sempre se achou um líder" dizia dele Fonseca e Costa, o cineasta.
Esteve preso pela PIDE, por motivos que explica por aqui., numa entrevista de 2001 ao Público  Esteve preso 15 dias e depois disso, já advogado, um director-geral de um banco, do BPA, convidou-o para trabalhar no banco. O modo como VVA explica o convite- feito depois de o presidente do banco ter indagado na faculdade sobre o que "havia de melhor"- e o folclore à volta do mesmo é interessante. Diz que se apresentou à entrevista com um livro de Marx ( na realidade de economia marxista, de Maurice Dobb que era recomendado em 1975 na faculdade de direito de Coimbra pelo professor Aníbal Almeida, já falecido-nota minha) debaixo do braço ( em 1959...), "desculpando-se de não poder aceitar  o convite, visto possuir uma formação marxista que de modo algum se coadunava com a banca". Mas ficou e a explicação que dá para a contradição é fascinante e relata mais sobre a personalidade e o carácter do que muitas linhas de biografia. Há uma explicação mais detalhada na mesma entrevista de 2001.



Em seguida ao primeiro governo provisório esteve em Angola, onde assumiu funções governativas no governo de transição e certamente passou pela saída apressada dos "retornados", com todo o cortejo de desgraças que a "descolonização exemplar" lhes trouxe. Não se dá por achado, o que revela numa pequena entrevista  ao primeiro número do jornal a Luta de 25 de Agosto de 1975 ( jornal do PS e dirigido por Raul Rego).


 E depois disso, segundo o Sempre Fixe de 21 de Setembro de 1974, foi embaixador. Em Paris.. Paris é sempre uma festa...mesmo quando se estava já ligado ao grupo Bulhosa, depois de se ter sido empregado de Cupertino de Miranda, mesmo na administração.


Vasco Vieira de Almeida tem assim um currículo imbatível- foi esquerdista, até do MUD-Juvenil, foi ajudante de banqueiro e administrador de banco capitalista; foi governante, conheceu por dentro o deslize de Portugal do capitalismo para o socialismo, apoiou tal mudança, associou-se ao esquerdismo comunista e acabou onde está: na advocacia de negócios mais liberal que pode haver e mais dependente do Estado que existe em Portugal porque cingida aos negócios de alto gabarito dominados pelos governantes.

A sua firma de advocacia tem já currículo como uma das poucas firmas que outro personagem lendário destas lides disse em tempos serem de consulta obrigatória para o Estado. E foram e têm sido...

Recentemente, em 2012, noutra entrevista ao Jornal de Negócios disse uma coisa espantosa, já por aqui comentada:


Outra coisa espantosa que disse em 2001, ao Público: A entrevistadora, Maria João Seixas. uma esquerdista, perguntou-lhe qual "a pior herança que o regime fascista nos legou e que ainda se faça sentir na sociedade portuguesa? " Resposta: "o conformismo e o corporativismo. "


Passada uma década, ao Jornal de Negócios, sobre o mesmo tema dizia isto: que continua a existir o corporativismo, ainda pior que dantes.


Resta saber o que VVA fez de útil e positivo, no campo da sua actividade, para acabar com aquilo que considera a pior herança de 48 anos que se prolongaram por mais 40...tendo em conta o modo de actuação das firmas de advocacia no nosso país, actualmente. E saber, principalmente, se Salazar ou Caetano permitiriam a maior pouca-vergonha de que essas mesmas firmas dão mostras, em vários casos de intervenção medianeira em negócios do Estado, na parecerística avulsa que prestam ao Estado a troco de milhões e na mais completa ausência de escrúpulos morais quando se diz, como Júdice disse que o Estado tem a obrigação de consultar essas firmas. 


De facto, o percurso biográfico de Vasco Vieira de Almeida tem encalhado ultimamente nos escândalos mais mediáticos dos últimos anos.
Esteve ligado ao Freeport e está ligado aos submarinos que Ana Gomes anda agora a tentar desvendar com a delicadeza e savoir-faire que se lhe conhece, porque se apercebeu que pode entalar Paulo Portas ou Durão Barroso.
No Freeport participou no negócio principal e sabe com certeza todos os pormenores do mesmo, designadamente o que os ingleses pensam e disseram, publica e particularmente sobre o caso e o então governante José Sócrates.
Sobre os submarinos e o negócios de quase mil milhões de euros, do Estado português com a Ferrostaal ou empresa subsidiária desta, sabe ainda melhor porque participou igualmente no negócio, representando os...alemães.
Estes, concluíram nas respectivas instância judiciais que houve grande corrupção no caso e até identificaram a fonte de corrupção concreta e os destinatários, num processo cujo embrulho é de muitas camadas e difícil de lidar pelo DCIAP português, cuja habilidade e competência profissional está à prova. O assunto já vem de final dos anos noventa e por isso é de temer o pior, tendo em conta a especial complexidade do esquema corruptivo, com a criação de empresas fantasma e testas-de-ferro como modus operandi, misturados em off-shores e empresas espalhadas por vários cantos do mundo.
Tudo isso foi já aflorado nos media, e comentado aqui, aqui e aqui. E também aqui. Com uma boa resenha do essencial , por aqui 
O nome de Vasco Vieira de Almeida surge assim associado a este caso dos submarinos, bem ou mal e há outros nomes na berlinda, referenciados por aqui, deste modo:  Helder Bataglia dos Santos, quadro do Grupo Espírito Santo (GES), Luís Horta e Costa, ex-presidente da ESCOM, empresa do GES que prestou assessoria ao consórcio alemão, Miguel Horta e Costa, ex-presidente da PT, o advogado Vasco Vieira de Almeida, entre outros.
Quanto a Helder Bataglia, o tal quadro da Escom ( já vendida como coisa que queima e agora toda virada para Angola) é uma referência que merecia maior história publicamente conhecida. Está todo integrado em Angola...

Por causa disto, a firma e o escritório de advocacia de Vasco Vieira de Almeida foi alvo de buscas, o que é quase inédito em Portugal e deu azo a protestos dos incomodados do costume.

A questão que se coloca neste contexto é delicada e permite avaliar o balanço de um quase quarenta anos de democracia:

Seria possível a Vasco Vieira de Almeida, enquanto advogado prosperar como prosperou, com um regime como o de Marcello Caetano? Seria possível que Vasco Vieira de Almeida fosse advogado dos alemães, num negócio que envolveu muitos milhões de euros do Estado português?

O deslize moral que se verificou logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 em matéria deste teor, dos negócios de particulares com o Estado, porque é que ocorreu?
Que carácter e moral têm personalidades como Vasco Vieira de Almeida, suspeitos de se conluiarem, ou pelo menos terem conhecimento concreto disso mesmo,  em actos de corrupção gravíssimos e gravosos para o Estado quando foram indivíduos que atentaram contra o regime anterior, a quem apodavam de várias coisas e vituperavam a corrupção que então nem sequer existia com este nível e desembaraço?
Onde pára afinal a moralidade? Agora ou antes?
E uma  final: é esta a Esquerda que Vasco Vieira de Almeida representa e em que acredita?

São estas perguntas que ficarão eventualmente sem resposta mas que se impunha fossem discutidas na praça pública.

Em coda e porque me parece necessário, tenho a dizer que não me parece que Vieira de Almeida seja corrupto, no sentido corrente da expressão e com laivos criminais. Não é bem isso. É outra coisa ainda pior: Vieira de Almeida, tal como Proença de Carvalho ou Júdice ou mesmo Sérvulo Correia ( impoluto nesse aspecto, parece-me) é uma das figuras deste regime corrupto que temos. Essencialmente, visceralmente corrupto como nunca o foram os regimes de Salazar e Caetano. Dificilmente se lhes apanhará seja o que for susceptível de ser julgado por um tribunal colectivo e para opróbrio final. Não creio em tal acontecimento porque o sistema que ajudaram a gizar os livra de tais incómodos e vilipêndios públicos. E não apenas por causa das dificuldades processuais, mas por outra coisa ainda pior: o regime acaparou-se de leis e regulamentos que legitimam essa corrupção endémica que mina qualquer Estado, como nunca o salazarismo ou o caetanismo foram capazes de fazer, ainda que o quisessem- e não quiseram, sendo isso um facto indesmentível, quanto a mim.
É esse o problema maior e Vieira de Almeida, por quem foi e por quem é, sabe que assim é.